Nigéria corre o risco de não recuperar investimentos em 38% dos projetos de petróleo devido à transição energética, alerta NRGI

Por Folarin Kehinde
O Natural Resource Governance Institute (NRGI) alertou que a Nigéria corre o risco de não recuperar os investimentos realizados em 38% de seus projetos de exploração e produção de petróleo e gás. O instituto instou o governo federal a reavaliar sua estratégia de investimentos no setor petrolífero diante da transição energética global.
A instituição advertiu que alguns projetos podem se tornar economicamente inviáveis à medida que os mercados globais de energia evoluem. Isso expõe o país ao risco de ativos encalhados (stranded assets) e a possíveis perdas de receita caso os investimentos avancem sem uma avaliação adequada dos riscos.
A gerente nacional do NRGI na Nigéria, Tengi George-Ikoli, apresentou essas conclusões durante um encontro para discussão de políticas públicas intitulado The Role of NNPC in Nigeria’s Energy Transition (O papel da NNPC na transição energética da Nigéria), realizado em Abuja.
O evento foi organizado pelo NRGI em colaboração com o Centre for Petroleum, Energy Economics and Law e o Centre for Energy, Finance and Development.
George-Ikoli explicou que a análise do instituto examinou os compromissos de investimento das empresas petrolíferas nacionais à luz de cenários alinhados às projeções da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês). O estudo avaliou a probabilidade de os projetos de exploração e produção recuperarem seus custos em um contexto de transformação dos mercados de energia.
“Para a Nigéria, nossa avaliação indica que 38% desses projetos correm o risco de não atingir o ponto de equilíbrio financeiro”, afirmou.
Ela defendeu que o governo adote uma abordagem mais realista para os investimentos no setor petrolífero, priorizando projetos capazes de gerar retornos sustentáveis e contribuir de forma significativa para o desenvolvimento nacional.
Segundo George-Ikoli, a Nigéria não pode manter uma estratégia baseada na continuidade dos modelos atuais de negócios enquanto as políticas energéticas globais, a demanda de mercado e os compromissos climáticos seguem em transformação.
A representante ressaltou a necessidade de direcionar receitas públicas e investimentos para prioridades nacionais de longo prazo, em vez de expor o país a projetos potencialmente não rentáveis.
NNPC tem papel central na transição energética
George-Ikoli afirmou que a Nigerian National Petroleum Company Limited (NNPCL) deve desempenhar um papel central na transição energética da Nigéria, considerando sua participação significativa nos ativos petrolíferos do país e sua contribuição para as receitas públicas, a segurança energética e o desenvolvimento econômico.
Segundo ela, uma transição bem-sucedida exige uma estratégia claramente definida para a NNPCL, incluindo planos de sustentabilidade acessíveis ao público e avaliações dos riscos financeiros, ambientais e sociais associados às operações da empresa.
“Uma transição que não inclua a NNPC dificilmente será bem-sucedida”, afirmou.
Ela defendeu uma colaboração mais estreita entre a NNPCL, os ministérios responsáveis pelas finanças e pelo planejamento nacional e outras partes interessadas relevantes. O objetivo seria desenvolver planos de curto, médio e longo prazo para orientar a atuação da empresa diante das transformações no cenário energético.
A gerente nacional do NRGI também alertou que mudanças nas políticas dos principais mercados importadores, especialmente na União Europeia, podem ampliar os riscos comerciais para países e empresas com produção de combustíveis fósseis intensiva em emissões.
Ela afirmou que a Nigéria precisa avaliar como essas mudanças podem afetar a competitividade de sua indústria de petróleo e gás e incorporar esses riscos às decisões de investimento.
George-Ikoli também manifestou preocupação com os impactos ambientais e sanitários das atividades petrolíferas sobre as comunidades anfitriãs, defendendo salvaguardas mais rigorosas à medida que a Nigéria amplia o uso do gás natural.
Ela destacou que os passivos ambientais decorrentes da saída de empresas petrolíferas internacionais de determinados ativos precisam ser enfrentados, a fim de evitar que as comunidades afetadas arquem com as consequências do abandono de responsabilidades.
Segundo a representante, a transição energética da Nigéria deve proteger as comunidades anfitriãs, fortalecer a responsabilização institucional e garantir que os benefícios do desenvolvimento energético não sejam comprometidos por danos ambientais.
NUPRC defende estratégia da Nigéria para o gás natural
Por sua vez, Bamidele Dada, representante da Nigerian Upstream Petroleum Regulatory Commission (NUPRC), afirmou que a Nigéria continuará recorrendo às suas abundantes reservas de gás natural como um dos principais componentes de sua estratégia de transição energética.
Dada declarou que o país apoia a transição global para fontes de energia mais limpas, mas seguirá um caminho que leve em consideração seus recursos naturais e suas necessidades de desenvolvimento.
Ele observou que o governo federal declarou o período de 2021 a 2030 como a Década do Gás, com o objetivo de incentivar o uso do gás natural na geração de eletricidade, nos transportes e nas indústrias que utilizam o gás como insumo energético e produtivo.
Segundo ele, a política busca apoiar o desenvolvimento industrial, ampliar o acesso à energia e atender às necessidades de uma população em crescimento.
Dada afirmou que o governo também pretende elevar a produção de petróleo bruto, atualmente abaixo de dois milhões de barris por dia, para três milhões de barris por dia até 2030. Para o gás natural, a meta é alcançar uma produção de 12 bilhões de pés cúbicos por dia.
Ele acrescentou que as recentes rodadas de licenciamento de áreas para exploração e produção fazem parte dos esforços para ampliar a produção, atrair investimentos e fortalecer a posição da Nigéria no mercado energético africano.
Dada reconheceu, contudo, que o aumento da produção precisa ser acompanhado de medidas de proteção ambiental e gestão sustentável dos recursos naturais.
Segundo ele, a Nigéria precisa equilibrar suas necessidades de abastecimento energético com a responsabilidade de proteger o meio ambiente. O representante acrescentou que a produção sustentável contribuirá para atrair os investimentos necessários à concretização das ambições energéticas do país.



