
Oil pipelines in Obrikom, Nigeria (Image: George Osodi / Associated Press / Alamy)
‘Refinem baby, refinem’
Defensores dos combustíveis fósseis na África aproveitam a crise global do petróleo e do gás para reforçar seus argumentos e reacender o debate sobre o futuro energético do continente.
“Drill baby, drill” (“Perfurem, baby, perfurem”), afirmou NJ Ayuk, presidente-executivo da Câmara Africana de Energia, em abril. Durante sua participação na Semana da Associação Africana de Refinadores e Distribuidores (African Refiners & Distributors Association Week), na Cidade do Cabo, ele também lançou outro slogan: “Refine baby, refine” (“Refinem, baby, refinem”).
O conflito no Golfo vem impulsionando um novo debate sobre transição energética e dependência energética em toda a África. Em poucos meses após a desestabilização do mercado global de energia, a turbulência econômica desencadeou episódios de instabilidade em diversos países africanos, incluindo protestos violentos no Quênia e greves em Moçambique.
Agora, uma crise inicialmente vista como excepcional começa a se tornar o novo normal. Nos últimos dias, os Estados Unidos voltaram a realizar ataques contra o Irã; o Irã respondeu atacando países vizinhos produtores de petróleo e embarcações de gás natural liquefeito (GNL); além disso, surgiram novas ameaças de cobrança de pedágios para a navegação no Estreito de Ormuz.
Os países importadores de energia estão entre os mais vulneráveis. O Quênia, por exemplo, que depende integralmente das importações de derivados de petróleo, registrou aumento de quase 25% no preço do diesel em abril e uma nova alta em maio.
Segundo um relatório recente da organização Power Shift Africa, oito dos doze países do mundo cujas importações de combustíveis fósseis representam mais de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) estão na África. Mas o problema não se restringe aos importadores. Ampliar a produção e a capacidade doméstica de refino no continente faz com que os países africanos produtores exportem a maior parte de seu petróleo na forma de óleo bruto (crude oil), tornando-os mais vulneráveis às oscilações internacionais de preços — daí o apelo de Ayuk para que a África passe a refinar seu próprio petróleo.
À medida que a crise evidencia as fragilidades do sistema energético africano, cresce, em alguns países, a percepção de que ampliar a produção e a capacidade de refino domésticas pode reduzir a dependência de importações vindas de regiões sujeitas a tensões geopolíticas. Esse movimento, entretanto, ocorre paralelamente à rápida expansão das energias renováveis no continente, impulsionada pela queda histórica dos custos das energias renováveis.
Apostando ainda mais no petróleo e no gás
Os países da África Oriental, entre os mais afetados pelos impactos da guerra sobre o mercado de petróleo, discutem a criação de uma refinaria conjunta em Tanga, na Tanzânia. A cidade portuária será o ponto final e centro de exportação do controverso Oleoduto de Petróleo Bruto da África Oriental (East African Crude Oil Pipeline – EACOP), que transportará petróleo de Uganda.
Gana também planeja construir um Polo Petrolífero (Petroleum Hub) com capacidade para refinar até 900 mil barris por dia. Os recentes desdobramentos geopolíticos fortaleceram a percepção sobre a “importância estratégica” desse projeto.

Oil pipelines in Obrikom, Nigeria (Image: George Osodi / Associated Press / Alamy)
Em resposta ao cenário internacional, a Agência Internacional de Energia (AIE) informa que alguns países africanos aumentaram sua produção de petróleo bruto. Ainda assim, a agência ressalta que esses incrementos são modestos quando comparados à perda da oferta proveniente do Golfo no mercado global.
Alguns governos já começam a colher benefícios financeiros desse contexto. É o caso de Angola, segundo maior exportador de petróleo da África, explica Flavio Inocencio, professor da Universidade Agostinho Neto. Ele destaca que o país continua altamente dependente das exportações petrolíferas, responsáveis por mais de 60% das receitas do orçamento público e cerca de 30% do PIB.
A maior parte das exportações angolanas é destinada a mercados asiáticos como China, Índia, Japão e Coreia do Sul, historicamente dependentes do petróleo do Oriente Médio. Diante das tensões na região, muitos desses países passaram a buscar fornecedores africanos para diversificar suas importações.
Os riscos da dependência do petróleo e do gás
“Embora os preços elevados do petróleo possam gerar benefícios fiscais de curto prazo para alguns produtores africanos, eles também aumentam os custos de energia e transporte para consumidores e economias africanas dependentes de importações”, afirmou Akeredolu à Dialogue Earth.
A atual crise energética evidenciou as vulnerabilidades econômicas associadas à dependência de petróleo e gás. Ainda assim, diversos países seguem avançando com projetos bilionários de geração elétrica a partir do gás natural (gas-to-power), entre eles Nigéria, Senegal, Moçambique e Tanzânia — estes três últimos novos produtores de gás.
Vários países africanos, incluindo Moçambique e Tanzânia, dependem das importações de gás provenientes do Catar, cuja infraestrutura de GNL foi alvo de ataques e sofreu danos parciais em março.
Embora não haja declarações oficiais relacionando diretamente esses ataques à continuidade dos projetos nacionais de GNL, a crise reforça o argumento em favor da produção doméstica, sobretudo em países onde o acesso à energia permanece limitado.
“A maioria dos países africanos enfrenta um problema de acesso à energia”, afirma Akeredolu. Citando a Nigéria como exemplo, ela destaca que “o desafio imediato é fornecer energia confiável e acessível a milhões de pessoas que ainda não têm acesso aos serviços energéticos”.
Outro aspecto importante do debate sobre o gás envolve as exportações. Os quatro países mencionados estão geograficamente posicionados para evitar as interrupções que tornaram altamente arriscadas as exportações provenientes do Golfo, o que aumenta seu interesse estratégico para mercados consumidores da Ásia e da Europa.
Uma análise do Centro de Energia, Finanças e Desenvolvimento (CEFD) alerta, porém, para os riscos de apostar em projetos excessivamente ambiciosos e voltados à exportação. Segundo o estudo, o avanço acelerado da transição para energias limpas pode reduzir a demanda nos mercados-alvo, aumentando o risco de criação de ativos encalhados (stranded assets) nos setores africanos de petróleo e gás.
A atual corrida por petróleo e gás no continente antecede a guerra no Golfo. Contudo, a demanda persistente dos grandes mercados parece estar incentivando governos a tentar capturar os benefícios econômicos esperados antes que a transição energética transforme de forma definitiva o sistema energético global.
O debate africano sobre petróleo e gás
A África contribuiu muito pouco para as mudanças climáticas provocadas pela ação humana, respondendo por cerca de 3% das emissões históricas globais até 2024. Esse contexto torna particularmente controversa a proposta de eliminação gradual dos combustíveis fósseis no continente.
A atual crise energética fortaleceu ainda mais as narrativas favoráveis aos combustíveis fósseis. Há também a expectativa de que novos projetos petrolíferos e de gás promovam desenvolvimento por meio da geração de empregos e do aumento das receitas públicas.
Entretanto, as evidências acumuladas ao longo de décadas de exploração de combustíveis fósseis na África nem sempre confirmam essa expectativa.
O relatório da Power Shift Africa sustenta que, em vez de promover desenvolvimento, os combustíveis fósseis têm contribuído para aumentar a vulnerabilidade econômica, aprofundar desigualdades e impor limitações estruturais ao crescimento nos 13 países africanos analisados.
Os autores destacam que, nos dois maiores produtores de petróleo do continente — Nigéria e Angola —, cerca de 40% da população ainda vive em extrema pobreza, com menos de US$ 3 por dia. O estudo também associa diretamente a produção de combustíveis fósseis a elevados níveis de corrupção e degradação ambiental.
Para Flavio Inocencio, da Universidade Agostinho Neto, essas tendências refletem um modelo extrativista voltado principalmente para a exportação de recursos naturais.
Na avaliação de Mohamed Adow, diretor da Power Shift Africa e um dos autores do relatório, existe “o risco de a África ficar presa a uma nova geração de relações extrativistas que exportam riqueza enquanto deixam sua população para trás”. Segundo ele, os combustíveis fósseis mantêm os países africanos expostos às instabilidades da economia global.
Em contraste, afirma Adow, as energias renováveis oferecem um caminho para a independência energética. Esse movimento já pode estar ganhando força. Dados de 2025 mostram que o continente importou painéis solares da China com capacidade total de 15 GW. .
A União Africana (UA), no entanto, adota uma posição diferente. Por meio da Comissão Africana de Energia, a organização busca ampliar a capacidade de refino e expandir o mercado africano de derivados de petróleo, além de defender o gás natural como instrumento para “promover o bem-estar de longo prazo, ao mesmo tempo em que contribui para enfrentar a ameaça global das mudanças climáticas e apoiar a transição energética”. Adeshina compartilha dessa visão e classifica o gás como um “combustível de transição”.
A crise do petróleo e do gás desencadeada pela guerra contra o Irã voltou a expor a vulnerabilidade da África aos choques energéticos globais. Ao mesmo tempo, a corrida internacional por novas fontes de petróleo e gás, somada aos preços persistentemente elevados do petróleo, fortaleceu parte dos argumentos favoráveis à ampliação dos investimentos em combustíveis fósseis nos países produtores africanos.
Em jogo está a direção que o desenvolvimento africano tomará nas próximas décadas.
“A África tem o direito ao desenvolvimento sustentável”, afirma Adow. “Mas não tem o direito de repetir os modelos de desenvolvimento poluentes que deram origem à crise climática.”



