Quem controlará os minerais críticos? A resposta dos EUA ao domínio chinês

A transição energética reorganiza cadeias produtivas e redefine relações de poder. No centro dessa disputa estão os chamados minerais críticos — recursos essenciais para a segurança econômica e tecnológica de países que buscam protagonismo em setores como robótica, semicondutores, baterias, energias renováveis e indústria militar. A pergunta que emerge é direta: quem controlará esses insumos estratégicos?
Nos últimos anos, os mercados desses minerais tornaram-se ainda mais concentrados. Entre 2020 e 2024, três países passaram a responder por 86% do refino global — aumento em relação aos 82% registrados no início da década. Quase toda essa expansão veio de um único fornecedor em cada caso: a Indonésia, no níquel, e a China, no refino de minerais como cobre, lítio, cobalto, grafite e terras raras.
Diante desse cenário, os Estados Unidos começaram a estruturar uma resposta. Em fevereiro, em Washington, o secretário de Estado Marco Rubio e o vice-presidente J.D. Vance reuniram representantes de cerca de 55 países para discutir a criação de um bloco comercial voltado aos minerais críticos. Entre os participantes estavam grandes produtores, como Brasil, África do Sul, Arábia Saudita, República Democrática do Congo, Austrália, Índia e Japão.
A proposta inclui instrumentos típicos de política industrial e comercial: estabelecimento de preços mínimos, padrões de mercado, subsídios e garantias de demanda. Embora a China não tenha sido mencionada explicitamente, o objetivo é claro: reduzir a dependência americana de cadeias de suprimento dominadas por empresas chinesas.
No caso das terras raras, o domínio chinês é particularmente expressivo. O país responde por cerca de 70% da mineração global, mais de 90% do refino e processamento e entre 94% e 98% da produção de ímãs permanentes — componentes indispensáveis para turbinas eólicas, motores elétricos e equipamentos eletrônicos. Esse controle ao longo de toda a cadeia de valor confere a Pequim influência significativa sobre preços, inovação tecnológica e dinâmica geopolítica.
A iniciativa ganhou urgência após a escalada de tensões comerciais entre Washington e Pequim. Em 2025, a China utilizou sua posição dominante em minerais críticos como resposta às tarifas impostas pelo governo de Donald Trump, expondo a vulnerabilidade americana nesse setor.
Além da articulação multilateral, os EUA lançaram o chamado Projeto Vault, que prevê a formação de estoques estratégicos avaliados em US$ 12 bilhões em minerais críticos. Paralelamente, o Departamento de Energia e o Departamento de Defesa ampliaram programas de financiamento destinados a fortalecer cadeias de suprimento consideradas estratégicas. Alem disto, os EUA vem realizando negociacoes bilaterais com diversos paises africanos na area de minerais.
Mas a estratégia americana difere da chinesa em um ponto fundamental. Enquanto empresas chinesas frequentemente participam diretamente de projetos de mineração e infraestrutura no exterior (investimento estrangeiro direto), companhias americanas tendem a operar por meio de contratos de fornecimento. Esses acordos garantem acesso a parte da produção mineral em troca de financiamento e/ou assistência técnica, sem controle operacional direto sobre as minas.
Essa abordagem revela horizontes estratégicos distintos. Pequim construiu, ao longo de duas décadas, uma presença industrial e financeira em diversas regiões do Sul Global. Washington, por sua vez, busca assegurar suprimentos por meio de instrumentos financeiros e diplomáticos, reduzindo riscos sem necessariamente assumir compromissos industriais de longo prazo.
A diferença não é trivial. Fluxos financeiros são importantes, mas investimentos produtivos e infraestrutura industrial costumam gerar efeitos de desenvolvimento mais duradouros. Por essa razão, é improvável que países africanos — como Zâmbia, Guiné ou República Democrática do Congo — marginalizem rapidamente empresas chinesas em favor de arranjos percebidos como menos estáveis.
Os Estados Unidos também enfrentam um desafio político. A retórica associada à política “América Primeiro” dificulta a construção de confiança entre parceiros do Sul Global. Além disso, governos e investidores precisam acreditar que iniciativas desse tipo sobreviverão a mudanças políticas em Washington.
Nesse tabuleiro geoeconômico, o Brasil enfrenta dilemas semelhantes aos de diversos países africanos. O país possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, cerca de 21 milhões de toneladas, além de posição relevante na produção de nióbio, ferro, bauxita, manganês e níquel. No caso do grafite, detém aproximadamente 26% das reservas globais. A produção de lítio também cresce no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.
Apesar dessa abundância, a economia brasileira permanece concentrada na extração mineral. Faltam infraestrutura e capacidade tecnológica para refino e processamento, alem de química para producao de imas etapas nas quais se concentra o maior valor agregado.
Esse contexto torna o país um destino atraente para investimentos estrangeiros, especialmente chineses. Empresas da China têm ampliado sua presença em setores ligados à transição energética no Brasil, como energia solar, veículos elétricos, mineracao e produção de baterias. Esses investimentos podem acelerar processos de industrialização, mas também levantam a questão de quem capturará os ganhos de longo prazo.
Uma possível alternativa emerge nas parcerias entre países do Sul Global. Brasil e Índia, por exemplo, assinaram recentemente um acordo de cooperação voltado ao processamento e intercâmbio tecnológico em minerais críticos. A iniciativa busca reduzir a dependência de infraestrutura e tecnologia concentradas em países desenvolvidos.
No fim das contas, a disputa por minerais críticos tende a favorecer quem oferecer mais do que financiamento ou acesso à extração. Transferência tecnológica, industrialização local e parcerias produtivas serão determinantes para definir quais países transformarão seus recursos naturais em desenvolvimento econômico — e quais permanecerão apenas como fornecedores de matéria-prima na nova economia da transição energética.



