A transição energética não será decidida apenas por tecnologias, mas por regras, padrões e disputas diplomáticas. No episódio de estreia do Caminhos da Transição mostramos por que a política externa é um dos campos decisivos para o futuro energético do Brasil e do Sul Global.
Caminhos da Transição é o podcast oficial do Centro de Energia, Finanças e Desenvolvimento (CEFD) apresentado por Nicolas Lippolis, diretor executivo do CEFD, e Aline Scherer, jornalista.
Para inaugurar a primeira temporada do podcast, conversamos com Laís Garcia, diplomata de carreira e chefe da Divisão de Energias Renováveis do Itamaraty. A conversa revela como temas aparentemente técnicos – como certificação, contabilidade de emissões e definição de “produtos verdes” — estão no centro das disputas econômicas e geopolíticas da transição.
A transição energética vai muito além de inovação tecnológica ou ambição climática. Trata-se de um processo principalmente político, que envolve decisões sobre quem define as regras do jogo, quais tecnologias ganham escala e como os custos e benefícios são distribuídos entre países.
Laís argumenta que, para países em desenvolvimento como o Brasil, a transição só será bem-sucedida se for justa, equitativa e inclusiva. Soluções desenhadas exclusivamente a partir da realidade de economias avançadas tendem a ignorar desafios estruturais do Sul Global, como pobreza, industrialização e geração de empregos.
Um dos eixos centrais da entrevista com Laís Garcia é a importância das regras internacionais. Ter vantagens comparativas em energia renovável, biomassa ou recursos naturais não é suficiente se essas vantagens não forem reconhecidas nos mercados globais.
O episódio aborda como debates sobre critérios de sustentabilidade, metodologias de cálculo de emissões, certificação e financiamento acontecem em fóruns como o G20, os BRICS, a COP, a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) e a Organização Marítima Internacional (OMI). Estar ausente desses espaços significa aceitar padrões definidos por outros.
A conversa também aborda a industrialização verde como pilar da estratégia brasileira. Laís comenta a Declaração de Belém, lançada no contexto da COP30, como um esforço para alinhar ação climática, política industrial e inclusão social.
A mensagem central: não há transição energética sustentável sem criação de empregos, fortalecimento da indústria e geração de valor local. Para o Brasil, isso passa por transformar ativos existentes – como energias renováveis abundantes, biocombustíveis e bioinsumos – em competitividade econômica.
Outro tema importante do episódio é a discussão sobre biocombustíveis e neutralidade tecnológica. Laís esclarece que neutralidade não significa perpetuar fontes poluentes, mas avaliar soluções com base na intensidade de emissões ao longo de todo o ciclo de vida.
Ela explica por que o Brasil defende metodologias de análise “do berço ao túmulo”, evitando distorções regulatórias que favorecem determinadas tecnologias por razões políticas ou comerciais – uma discussão central para mercados emergentes como combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e combustíveis marítimos.
Data: 12 de janeiro de 2026
Convidada: Laís Garcia, Chefe da Divisão de Energias Renováveis do Itamaraty.
Episódio 1: Diplomacia Energética e Biocombustíveis: o Papel Estratégico do Brasil
Anfitriões: Nicolas Lippolis e Aline Scherer
Nicolas Lippolis: Olá, eu sou Nicolas Lippolis e este é o Caminhos da Transição, o podcast do Centro de Estudos em Energia, Finanças e Desenvolvimento, que promove conversas com as principais vozes da transição energética no Brasil e no mundo. Em cada episódio, abordamos questões centrais da transição energética com foco em soluções inovadoras e políticas públicas capazes de destravar os principais obstáculos na transição para uma economia de baixo carbono. No episódio de hoje, vamos falar sobre diplomacia energética e o papel estratégico do Brasil.
Aline Scherer: Olá, eu sou Aline Scherer e tenho a honra de apresentar a nossa convidada para este episódio: Laís Garcia, Chefe da Divisão de Energias Renováveis do Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty. Ela é diplomata de carreira há quase 20 anos e também atua como presidente da Associação das Mulheres Diplomatas do Brasil. Laís, seja bem-vinda ao Caminhos da Transição.
Laís Garcia: Muito obrigada, Nicolas e Aline. É um prazer e uma honra para mim conversar com vocês.
Aline Scherer: Laís, a transição energética é um desafio global, mas também oferece uma oportunidade imensa, e o Brasil tem se posicionado de forma muito ativa nesse cenário. Por que a diplomacia é tão importante para a transição e qual é o papel do Itamaraty na construção do futuro energético do Brasil e do mundo?
Laís Garcia: A transição é certamente um dos grandes desafios que estamos enfrentando como humanidade — a necessidade de reduzir emissões no setor de energia e, ao mesmo tempo, garantir acesso à energia e desenvolvimento. O Brasil vê a transição como um futuro que pode ser muito importante para os países, especialmente para os países em desenvolvimento, desde que a gente trilhe esse caminho com justiça, equidade e inclusão. O papel do Itamaraty é garantir que a visão do Brasil nessas discussões reflita as necessidades, os objetivos e as prioridades do Brasil e do governo brasileiro.
Temos feito isso com muito afinco ao longo desses últimos anos, que foram anos muito intensos para a pauta de transição energética. Tivemos a oportunidade de sediar grandes eventos multilaterais internacionais, o que nos deu uma oportunidade ainda mais intensa de moldar esses debates a partir da visão do Brasil e dos países em desenvolvimento. Citaria o G20, o BRICS e a COP30 como os últimos eventos que permitiram ao Brasil dar o tom da transição energética que valorizamos e queremos promover.
Nicolas Lippolis: Essa projeção internacional nos leva a um ponto crucial: a transição energética não pode ser um processo que aprofunde desigualdades; pelo contrário, precisa ser justa, especialmente para os países em desenvolvimento. Muitas vezes, as soluções propostas pelos países desenvolvidos não cabem nas realidades dos países em desenvolvimento, particularmente no que diz respeito à pobreza, que continua sendo um grande desafio e deve estar no centro de qualquer política de transição. Na COP30, foi lançada a Declaração de Belém para a Industrialização Limpa, que é um exemplo claro disso. Não podemos pensar no sistema energético do futuro sem considerar a importância da geração de empregos e da inclusão social. Como o Brasil e outros países do Sul Global podem promover a industrialização verde? E qual o papel da diplomacia nisso?
Laís Garcia: Obrigada por essa pergunta, Nicolas. Porque a industrialização verde sustentável foi um dos grandes temas que trabalhamos na COP30 com muito afinco, especialmente na Agenda de Ação. Fiquei muito feliz com o resultado que alcançamos em torno da Declaração de Belém sobre Industrialização Limpa, que conta com mais de 34 apoios entre países e organizações internacionais. O terceiro setor também se engajou muito porque a Declaração de Belém demonstra como o Brasil quer que o tema da transição energética seja abordado de forma a contemplar os interesses dos países em desenvolvimento.
O que isso significa exatamente? Significa que essa nova indústria que está sendo criada — e que pode ser muito maior do que é — deve considerar os interesses e as especificidades dos países em desenvolvimento. Para dar exemplos claros: estamos falando da definição do que são produtos verdes, como eles são produzidos, as emissões incluídas nesse produto e as regras que vão influenciar o comércio e o financiamento. Estamos tentando chamar a atenção para a importância de ter regras que contemplem as visões das nações em desenvolvimento. Na prática, isso significa transformar as especificidades produtivas do Brasil — como os bioinsumos e a abundante energia renovável que temos — em ativos competitivos.
Nicolas Lippolis: Você mencionou a abundância de renováveis no Brasil. A maioria das pessoas sabe, mas vale notar a grande vantagem do Brasil: nossa matriz energética é uma das mais limpas do mundo, com 50% da energia vindo de fontes renováveis e 90% da eletricidade também vindo de renováveis. Isso nos coloca em uma posição realmente vantajosa para a descarbonização da indústria. Produtos como o aço verde e o SAF (Combustível Sustentável de Aviação) estão cada vez mais presentes nas conversas do setor. Em quais novos mercados o Brasil pode transformar sua vantagem competitiva em benefícios econômicos concretos?
Laís Garcia: Você mencionou dois setores muito importantes: o aço — eu acrescentaria também o ferro — e os combustíveis sustentáveis de aviação e marítimos. Todas essas áreas têm um grande potencial para o Brasil participar das cadeias globais, mas também enfrentam desafios. Esses desafios estão relacionados a como definimos produtos sustentáveis, as regras para avaliação da sustentabilidade e as regras para o cálculo de emissões. O Brasil precisa ser capaz de competir em igualdade de condições com outros países e receber investimentos.
Estamos tentando trazer mais transparência para esse debate. Quando falamos de produtos verdes, precisamos ir além e definir como avaliamos a sua sustentabilidade. Esse é o grande debate para países em desenvolvimento como o Brasil. Quanto mais clareza e transparência trouxermos, mais seremos capazes de competir. O papel do Itamaraty é participar de todas essas discussões e da definição de regras internacionais para garantir que nossos produtos sejam incluídos nesse novo mundo de regras emergentes. Precisamos ser muito ativos para garantir que o Brasil esteja incluído nesse futuro mais limpo e sustentável.
Nicolas Lippolis: Para quem não é diplomata, esse mundo pode parecer confuso com a proliferação de siglas, fóruns e reuniões. Você poderia ajudar a esclarecer quais são os principais fóruns onde essas regras e padrões são definidos? É o G20, a COP, o BRICS?
Laís Garcia: Existem fóruns políticos onde discutimos visões da transição energética e quais tipos de energia devem ser priorizados. Estes são basicamente políticos: G20, BRICS e COP. No entanto, as discussões sobre energia são muito fragmentadas porque não existe um regime internacional único para a energia. Temos um regime climático (COP e seus acordos), mas a energia está dispersa. Temos a Agência Internacional de Energia (AIE), a Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), discussões de energia no G20 e discussões regionais.
Além das definições políticas, existem regras específicas por setor. Por exemplo, a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) define as rotas tecnológicas para os Combustíveis Sustentáveis de Aviação (SAF) que as companhias aéreas podem usar para compensar emissões. Este é um debate onde o Brasil está muito presente. Outro fórum é a Organização Marítima Internacional (IMO). Assim como discutimos parâmetros para a aviação, estamos agora discutindo para o combustível marítimo. O Brasil atua ali para garantir que nossas matérias-primas e rotas tecnológicas sejam incluídas na lista de combustíveis para a descarbonização marítima.
Nicolas Lippolis: O Brasil tem defendido a “neutralidade tecnológica”, o que significa não priorizar uma rota específica como a eletrificação, que foi vista como a única solução na Europa. Por que essa discussão é tão vital, especialmente para os biocombustíveis?
Laís Garcia: Essa é uma excelente pergunta. Quando o Brasil menciona “neutralidade tecnológica”, não queremos ser confundidos com países que usam o termo para continuar usando fontes de energia poluentes. Para nós, neutralidade tecnológica significa que o potencial da energia deve ser avaliado com base na intensidade de emissões e na sustentabilidade da produção, preferencialmente ao longo de todo o ciclo de produção. Precisamos de um “campo de jogo nivelado” para comparar laranjas com laranjas. Se compararmos apenas a tecnologia, os países estabelecerão regras que favorecem as tecnologias que eles possuem ou querem vender.
Para os biocombustíveis, precisamos concordar em uma forma de medir as emissões que não dependa da tecnologia utilizada, mas da redução real das emissões em comparação com os combustíveis fósseis. O Brasil tem uma experiência significativa com o RenovaBio e sua calculadora. Defendemos a “regra de ouro”: a Análise de Ciclo de Vida (ACV). Isso significa desenvolver e concordar com formas científicas e justas de contar as emissões para recompensar as tecnologias que realmente as reduzem.
Aline Scherer: O que exatamente significa a “Análise de Ciclo de Vida” de um produto? E por que ainda existe preconceito contra os biocombustíveis brasileiros?
Laís Garcia: Análise de Ciclo de Vida significa olhar para todo o ciclo de produção e contabilizar as emissões até o produto final. Para o etanol de cana-de-açúcar brasileiro, por exemplo, contamos a terra utilizada, os insumos (fertilizantes, defensivos), o tipo de colheita, a gestão de resíduos, a energia utilizada na usina e o transporte até o consumidor. O Brasil defende uma análise completa “do berço ao túmulo” para evitar o “vazamento de emissões” — onde parte das emissões geradas escapa da contabilidade.
Sobre o preconceito, muitas vezes ele se baseia em preocupações com a mudança no uso da terra ou desmatamento. Alguns países produziram biocombustíveis sem respeitar essas regras, mas esse não é o caso do Brasil, que possui leis ambientais claras. Há também um equívoco sobre a competição entre alimentos e biocombustíveis. O Brasil fomenta a transparência para que os combustíveis possam ser certificados e verificados. Finalmente, há a competição comercial. Nem todos os países têm terra ou tecnologia para biocombustíveis. O Brasil é muito competitivo, o que gera resistência de quem não domina essa tecnologia.
Nicolas Lippolis: Os biocombustíveis voltaram a ser “legais”. Vi notícias sobre empresas investindo em milho e na macaúba — uma matéria-prima de que eu não tinha ouvido falar.
Laís Garcia: Exatamente! A macaúba é provavelmente uma matéria-prima que só existe no Brasil. Então, como você vai à OACI e demonstra a sustentabilidade dela? Isso exige um trabalho científico intenso. Cada país terá especificidades — o Japão, por exemplo, tem uma rota para SAF usando cocos “imperfeitos”. Queremos essa diversidade e precisamos de critérios transparentes e universais para permitir que todas essas matérias-primas sejam contabilizadas.
Também é importante mencionar o compromisso Belém 4X lançado na COP, onde vários países se comprometeram a quadruplicar a produção de combustíveis sustentáveis até 2035. O presidente Lula se envolveu pessoalmente no convite aos países para adotarem isso. Esse compromisso baseia-se num relatório da AIE desenvolvido com a contribuição do Brasil. Ele mostra que é viável quadruplicar o uso de hidrogênio, biocombustíveis, biogás e combustíveis sintéticos até 2035 sem adicionar terras, focando em ganhos de produtividade e cooperação.
Nicolas Lippolis: Não podemos encerrar sem perguntar sobre a sua liderança na Associação das Mulheres Diplomatas do Brasil. A energia e a diplomacia de alto nível são historicamente dominadas por homens. Como a presença de mulheres em cargos de decisão influencia a forma como o Brasil negocia?
Laís Garcia: A diplomacia deve refletir a população que representa. Não podemos ter um país como o Brasil representado por uma diplomacia essencialmente masculina e branca. É um déficit de representação e uma questão de justiça. As mulheres são 50% da população. Na diplomacia brasileira, temos apenas 23% de mulheres. Nossa associação foi criada em 2023 para chamar a atenção para isso. Equipes diversas trazem perspectivas diferentes e nos permitem captar a realidade de forma mais completa. Nosso principal objetivo é uma política institucionalizada de paridade de gênero — 50% de mulheres em todos os postos e cargos de poder.
Aline Scherer: Parabéns pelo seu trabalho. Gostaria de acrescentar algum comentário final?
Laís Garcia: A diplomacia é feita de pessoas e de um conjunto de perspectivas. Olhamos para a transição energética através dos olhos do Brasil e dos países em desenvolvimento. O Brasil é complexo e não cabe em “caixas”. Trazemos uma perspectiva diferente para os problemas. Hoje, o contexto internacional está mais turbulento e a própria transição energética está sendo questionada. Mas acreditamos no caminho da justiça e do desenvolvimento. O Brasil continuará defendendo a transição energética com muito afinco.
Aline Scherer: Obrigada, Laís, por compartilhar seu conhecimento. Este foi o podcast Caminhos da Transição. Se você gostou, por favor nos avalie e compartilhe. Nos vemos no próximo episódio!
Data: 12 de janeiro de 2026
Convidada: Laís Garcia, Chefe da Divisão de Energias Renováveis do Itamaraty.
Episódio 1: Diplomacia Energética e Biocombustíveis: o Papel Estratégico do Brasil
Anfitriões: Nicolas Lippolis e Aline Scherer
Nicolas Lippolis: Olá, eu sou Nicolas Lippolis e este é o Caminhos da Transição, o podcast do Centro de Estudos em Energia, Finanças e Desenvolvimento, que promove conversas com as principais vozes da transição energética no Brasil e no mundo. Em cada episódio, abordamos questões centrais da transição energética com foco em soluções inovadoras e políticas públicas capazes de destravar os principais obstáculos na transição para uma economia de baixo carbono. No episódio de hoje, vamos falar sobre diplomacia energética e o papel estratégico do Brasil.
Aline Scherer: Olá, eu sou Aline Scherer e tenho a honra de apresentar a nossa convidada para este episódio: Laís Garcia, Chefe da Divisão de Energias Renováveis do Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty. Ela é diplomata de carreira há quase 20 anos e também atua como presidente da Associação das Mulheres Diplomatas do Brasil. Laís, seja bem-vinda ao Caminhos da Transição.
Laís Garcia: Muito obrigada, Nicolas e Aline. É um prazer e uma honra para mim conversar com vocês.
Aline Scherer: Laís, a transição energética é um desafio global, mas também oferece uma oportunidade imensa, e o Brasil tem se posicionado de forma muito ativa nesse cenário. Por que a diplomacia é tão importante para a transição e qual é o papel do Itamaraty na construção do futuro energético do Brasil e do mundo?
Laís Garcia: A transição é certamente um dos grandes desafios que estamos enfrentando como humanidade — a necessidade de reduzir emissões no setor de energia e, ao mesmo tempo, garantir acesso à energia e desenvolvimento. O Brasil vê a transição como um futuro que pode ser muito importante para os países, especialmente para os países em desenvolvimento, desde que a gente trilhe esse caminho com justiça, equidade e inclusão. O papel do Itamaraty é garantir que a visão do Brasil nessas discussões reflita as necessidades, os objetivos e as prioridades do Brasil e do governo brasileiro.
Temos feito isso com muito afinco ao longo desses últimos anos, que foram anos muito intensos para a pauta de transição energética. Tivemos a oportunidade de sediar grandes eventos multilaterais internacionais, o que nos deu uma oportunidade ainda mais intensa de moldar esses debates a partir da visão do Brasil e dos países em desenvolvimento. Citaria o G20, o BRICS e a COP30 como os últimos eventos que permitiram ao Brasil dar o tom da transição energética que valorizamos e queremos promover.
Nicolas Lippolis: Essa projeção internacional nos leva a um ponto crucial: a transição energética não pode ser um processo que aprofunde desigualdades; pelo contrário, precisa ser justa, especialmente para os países em desenvolvimento. Muitas vezes, as soluções propostas pelos países desenvolvidos não cabem nas realidades dos países em desenvolvimento, particularmente no que diz respeito à pobreza, que continua sendo um grande desafio e deve estar no centro de qualquer política de transição. Na COP30, foi lançada a Declaração de Belém para a Industrialização Limpa, que é um exemplo claro disso. Não podemos pensar no sistema energético do futuro sem considerar a importância da geração de empregos e da inclusão social. Como o Brasil e outros países do Sul Global podem promover a industrialização verde? E qual o papel da diplomacia nisso?
Laís Garcia: Obrigada por essa pergunta, Nicolas. Porque a industrialização verde sustentável foi um dos grandes temas que trabalhamos na COP30 com muito afinco, especialmente na Agenda de Ação. Fiquei muito feliz com o resultado que alcançamos em torno da Declaração de Belém sobre Industrialização Limpa, que conta com mais de 34 apoios entre países e organizações internacionais. O terceiro setor também se engajou muito porque a Declaração de Belém demonstra como o Brasil quer que o tema da transição energética seja abordado de forma a contemplar os interesses dos países em desenvolvimento.
O que isso significa exatamente? Significa que essa nova indústria que está sendo criada — e que pode ser muito maior do que é — deve considerar os interesses e as especificidades dos países em desenvolvimento. Para dar exemplos claros: estamos falando da definição do que são produtos verdes, como eles são produzidos, as emissões incluídas nesse produto e as regras que vão influenciar o comércio e o financiamento. Estamos tentando chamar a atenção para a importância de ter regras que contemplem as visões das nações em desenvolvimento. Na prática, isso significa transformar as especificidades produtivas do Brasil — como os bioinsumos e a abundante energia renovável que temos — em ativos competitivos.
Nicolas Lippolis: Você mencionou a abundância de renováveis no Brasil. A maioria das pessoas sabe, mas vale notar a grande vantagem do Brasil: nossa matriz energética é uma das mais limpas do mundo, com 50% da energia vindo de fontes renováveis e 90% da eletricidade também vindo de renováveis. Isso nos coloca em uma posição realmente vantajosa para a descarbonização da indústria. Produtos como o aço verde e o SAF (Combustível Sustentável de Aviação) estão cada vez mais presentes nas conversas do setor. Em quais novos mercados o Brasil pode transformar sua vantagem competitiva em benefícios econômicos concretos?
Laís Garcia: Você mencionou dois setores muito importantes: o aço — eu acrescentaria também o ferro — e os combustíveis sustentáveis de aviação e marítimos. Todas essas áreas têm um grande potencial para o Brasil participar das cadeias globais, mas também enfrentam desafios. Esses desafios estão relacionados a como definimos produtos sustentáveis, as regras para avaliação da sustentabilidade e as regras para o cálculo de emissões. O Brasil precisa ser capaz de competir em igualdade de condições com outros países e receber investimentos.
Estamos tentando trazer mais transparência para esse debate. Quando falamos de produtos verdes, precisamos ir além e definir como avaliamos a sua sustentabilidade. Esse é o grande debate para países em desenvolvimento como o Brasil. Quanto mais clareza e transparência trouxermos, mais seremos capazes de competir. O papel do Itamaraty é participar de todas essas discussões e da definição de regras internacionais para garantir que nossos produtos sejam incluídos nesse novo mundo de regras emergentes. Precisamos ser muito ativos para garantir que o Brasil esteja incluído nesse futuro mais limpo e sustentável.
Nicolas Lippolis: Para quem não é diplomata, esse mundo pode parecer confuso com a proliferação de siglas, fóruns e reuniões. Você poderia ajudar a esclarecer quais são os principais fóruns onde essas regras e padrões são definidos? É o G20, a COP, o BRICS?
Laís Garcia: Existem fóruns políticos onde discutimos visões da transição energética e quais tipos de energia devem ser priorizados. Estes são basicamente políticos: G20, BRICS e COP. No entanto, as discussões sobre energia são muito fragmentadas porque não existe um regime internacional único para a energia. Temos um regime climático (COP e seus acordos), mas a energia está dispersa. Temos a Agência Internacional de Energia (AIE), a Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), discussões de energia no G20 e discussões regionais.
Além das definições políticas, existem regras específicas por setor. Por exemplo, a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) define as rotas tecnológicas para os Combustíveis Sustentáveis de Aviação (SAF) que as companhias aéreas podem usar para compensar emissões. Este é um debate onde o Brasil está muito presente. Outro fórum é a Organização Marítima Internacional (IMO). Assim como discutimos parâmetros para a aviação, estamos agora discutindo para o combustível marítimo. O Brasil atua ali para garantir que nossas matérias-primas e rotas tecnológicas sejam incluídas na lista de combustíveis para a descarbonização marítima.
Nicolas Lippolis: O Brasil tem defendido a “neutralidade tecnológica”, o que significa não priorizar uma rota específica como a eletrificação, que foi vista como a única solução na Europa. Por que essa discussão é tão vital, especialmente para os biocombustíveis?
Laís Garcia: Essa é uma excelente pergunta. Quando o Brasil menciona “neutralidade tecnológica”, não queremos ser confundidos com países que usam o termo para continuar usando fontes de energia poluentes. Para nós, neutralidade tecnológica significa que o potencial da energia deve ser avaliado com base na intensidade de emissões e na sustentabilidade da produção, preferencialmente ao longo de todo o ciclo de produção. Precisamos de um “campo de jogo nivelado” para comparar laranjas com laranjas. Se compararmos apenas a tecnologia, os países estabelecerão regras que favorecem as tecnologias que eles possuem ou querem vender.
Para os biocombustíveis, precisamos concordar em uma forma de medir as emissões que não dependa da tecnologia utilizada, mas da redução real das emissões em comparação com os combustíveis fósseis. O Brasil tem uma experiência significativa com o RenovaBio e sua calculadora. Defendemos a “regra de ouro”: a Análise de Ciclo de Vida (ACV). Isso significa desenvolver e concordar com formas científicas e justas de contar as emissões para recompensar as tecnologias que realmente as reduzem.
Aline Scherer: O que exatamente significa a “Análise de Ciclo de Vida” de um produto? E por que ainda existe preconceito contra os biocombustíveis brasileiros?
Laís Garcia: Análise de Ciclo de Vida significa olhar para todo o ciclo de produção e contabilizar as emissões até o produto final. Para o etanol de cana-de-açúcar brasileiro, por exemplo, contamos a terra utilizada, os insumos (fertilizantes, defensivos), o tipo de colheita, a gestão de resíduos, a energia utilizada na usina e o transporte até o consumidor. O Brasil defende uma análise completa “do berço ao túmulo” para evitar o “vazamento de emissões” — onde parte das emissões geradas escapa da contabilidade.
Sobre o preconceito, muitas vezes ele se baseia em preocupações com a mudança no uso da terra ou desmatamento. Alguns países produziram biocombustíveis sem respeitar essas regras, mas esse não é o caso do Brasil, que possui leis ambientais claras. Há também um equívoco sobre a competição entre alimentos e biocombustíveis. O Brasil fomenta a transparência para que os combustíveis possam ser certificados e verificados. Finalmente, há a competição comercial. Nem todos os países têm terra ou tecnologia para biocombustíveis. O Brasil é muito competitivo, o que gera resistência de quem não domina essa tecnologia.
Nicolas Lippolis: Os biocombustíveis voltaram a ser “legais”. Vi notícias sobre empresas investindo em milho e na macaúba — uma matéria-prima de que eu não tinha ouvido falar.
Laís Garcia: Exatamente! A macaúba é provavelmente uma matéria-prima que só existe no Brasil. Então, como você vai à OACI e demonstra a sustentabilidade dela? Isso exige um trabalho científico intenso. Cada país terá especificidades — o Japão, por exemplo, tem uma rota para SAF usando cocos “imperfeitos”. Queremos essa diversidade e precisamos de critérios transparentes e universais para permitir que todas essas matérias-primas sejam contabilizadas.
Também é importante mencionar o compromisso Belém 4X lançado na COP, onde vários países se comprometeram a quadruplicar a produção de combustíveis sustentáveis até 2035. O presidente Lula se envolveu pessoalmente no convite aos países para adotarem isso. Esse compromisso baseia-se num relatório da AIE desenvolvido com a contribuição do Brasil. Ele mostra que é viável quadruplicar o uso de hidrogênio, biocombustíveis, biogás e combustíveis sintéticos até 2035 sem adicionar terras, focando em ganhos de produtividade e cooperação.
Nicolas Lippolis: Não podemos encerrar sem perguntar sobre a sua liderança na Associação das Mulheres Diplomatas do Brasil. A energia e a diplomacia de alto nível são historicamente dominadas por homens. Como a presença de mulheres em cargos de decisão influencia a forma como o Brasil negocia?
Laís Garcia: A diplomacia deve refletir a população que representa. Não podemos ter um país como o Brasil representado por uma diplomacia essencialmente masculina e branca. É um déficit de representação e uma questão de justiça. As mulheres são 50% da população. Na diplomacia brasileira, temos apenas 23% de mulheres. Nossa associação foi criada em 2023 para chamar a atenção para isso. Equipes diversas trazem perspectivas diferentes e nos permitem captar a realidade de forma mais completa. Nosso principal objetivo é uma política institucionalizada de paridade de gênero — 50% de mulheres em todos os postos e cargos de poder.
Aline Scherer: Parabéns pelo seu trabalho. Gostaria de acrescentar algum comentário final?
Laís Garcia: A diplomacia é feita de pessoas e de um conjunto de perspectivas. Olhamos para a transição energética através dos olhos do Brasil e dos países em desenvolvimento. O Brasil é complexo e não cabe em “caixas”. Trazemos uma perspectiva diferente para os problemas. Hoje, o contexto internacional está mais turbulento e a própria transição energética está sendo questionada. Mas acreditamos no caminho da justiça e do desenvolvimento. O Brasil continuará defendendo a transição energética com muito afinco.
Aline Scherer: Obrigada, Laís, por compartilhar seu conhecimento. Este foi o podcast Caminhos da Transição. Se você gostou, por favor nos avalie e compartilhe. Nos vemos no próximo episódio!