Entre segurança energética, desenvolvimento responsável e os desafios da transição
Painel do Fórum Brazil Climate Futures, realizado na Columbia University durante a Semana do Clima de Nova York 2026, reuniu diferentes perspectivas sobre o futuro da produção de petróleo no Brasil, efeitos econômicos e fiscais, segurança energética, impactos locais e os desafios para uma transição de baixo carbono.

A expansão da produção de petróleo, a segurança energética e os compromissos climáticos do Brasil estiveram no centro do painel “Petróleo e Transição Energética”, realizado no Fórum Brazil Climate Futures, na Universidade Columbia, durante a Semana do Clima de Nova York. O evento, ocorrido em 24 de setembro de 2026, reuniu pesquisadores, representantes da sociedade civil e atores do setor público e privado para dialogar sobre as transformações econômicas, ambientais e sociais do Brasil.
Moderado pelo economista e cientista político Dr. Nicolas Lippolis, fundador e diretor executivo do Centro de Energia, Finanças e Desenvolvimento (CEFD), o painel reuniu José Pio Borges, presidente do Conselho de Curadores do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); Luene Karipuna, diretora executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá (APOIANP) e liderança indígena do Oiapoque, no Amapá; Rosana Santos, diretora executiva do Instituto E+ Transição Energética; e Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.
A conversa partiu do peso que o petróleo ainda tem na economia brasileira. “44,5 bilhões de dólares foi o valor que o Brasil arrecadou com as exportações de petróleo bruto no ano passado, tornando-se o principal produto de exportação do Brasil”, disse Lippolis.
A Margem Equatorial, considerada a nova fronteira da exploração do petróleo no Brasil, tem sido apresentada por agentes econômicos e políticos como oportunidade para ampliar a produção e gerar receitas para regiões de menor renda.
“O mito de que o petróleo necessariamente vai trazer desenvolvimento não é desfeito. Vimos isso, por exemplo, em um país vizinho, a Venezuela. O CEFD também trabalha na África, e isso também acontece em muitos países africanos produtores de petróleo. Muitas vezes, há um incentivo para que as elites políticas superestimem os benefícios do petróleo, porque as rendas geradas acabam chegando até elas”, apontou Lippolis.
Mudanças nos Territórios
A chegada de uma nova atividade econômica sem planejamento está esgotando a capacidade dos serviços públicos e aprofundando problemas já existentes na região. As pesquisas iniciaram há três anos em Oiapoque, extremo norte do Amapá, inicialmente com uma instalação da Petrobras.
“Meu território mudou completamente. Se criaram sete novos bairros em três anos. As pessoas que hoje estão em Oiapoque, na perspectiva de mudar de vida, nesse primeiro momento, não vão mudar. Elas estão vivendo uma mazela que vai gerar problema social. Então, quando nós falamos de transição energética, nós precisamos falar da preparação do governo brasileiro para esta transição”, disse Luene Karipuna.
Os efeitos econômicos, sociais e ambientais podem alcançar comunidades costeiras e povos indígenas. “O que é o offshore para vocês? Está longe da sua casa, mas está dentro da minha casa. Ela está em um lugar sagrado. […] A pesquisa já gerou pressão, especulação imobiliária e atraiu o garimpo ilegal para dentro do território”, completou.
Karipuna afirma que a participação social deveria ocorrer antes da definição dos projetos, incluindo a consulta aos povos indígenas antes dos leilões de blocos. Ela citou protocolos de consulta que foram criados pelo povo Wajãpi no Amapá, referência na região sobre a defesa do direito à consulta prévia, livre e informada.
José Pio Borges destacou que o Brasil tem ampliado as exportações para mercados como China, Índia e Europa, e aumentado sua importância para a segurança energética internacional. “O Brasil é uma ótima alternativa para as pessoas que dependiam demais do Oriente Médio”, disse ele, ressaltando os baixos custos de produção no Brasil. “O petróleo continuará relevante por pelo menos uma geração”, completou Borges, destacando que a eletrificação, especialmente na China, é um dos fatores que podem alterar esse cenário.
Com a previsão de queda de demanda por petróleo nas próximas décadas, Rosana Santos chamou atenção para o risco de investimentos de longo prazo se tornarem economicamente inviáveis. Ela ressaltou que decisões sobre novas infraestruturas precisam considerar a transição energética em curso, sobretudo com a eletrificação acelerada.
“Temos hoje um cenário de preço de petróleo que não necessariamente é o futuro do preço de petróleo. Se construirmos uma grande infraestrutura de prospecção e distribuição de petróleo e gás natural baseado no preço presente, poderemos ter ativos encalhados”.
O Plano Decenal de Expansão de Energia, um instrumento de planejamento integrado que tem por objetivo indicar as perspectivas da expansão do setor de energia no Brasil, prevê aproximadamente 80% dos investimentos do setor energético destinados a combustíveis fósseis, principalmente petróleo e gás.
Mas mesmo que a política energética brasileira ainda direcione a maior parte dos investimentos para o setor de petróleo e gás, a necessidade de reduzir a produção e o consumo de combustíveis fósseis é comprovada amplamente pela ciência, destacou Márcio Astrini sobre os efeitos climáticos e consequências da expansão da oferta.
Renda e royalties
A destinação das receitas do setor aproximou as posições apresentadas no painel. Santos defendeu que os royalties sejam utilizados para diversificar as economias dos territórios produtores, com regras capazes de transformar a renda do petróleo em investimento produtivo e preparar a economia para uma redução da dependência do petróleo.
O desafio está nas regras de aplicação dos recursos. Somente com planejamento as receitas temporárias de um recurso finito como o petróleo poderão, além de financiar despesas, criar condições para uma economia mais diversificada e menos desigual. Atualmente, mais da metade das rendas do petróleo destinadas a governos subnacionais está concentrada em poucos governos, lembrou o Dr. Lippolis. O estado do Rio de Janeiro sozinho recebe 82% do total.
Rosana concluiu: “Se é para explorar, então, que se use esse dinheiro para preparar a economia para um futuro sem petróleo, e com desenvolvimento social e econômico para os territórios”. Aproveitar a matriz elétrica majoritariamente renovável do Brasil para ampliar a participação em cadeias internacionais de maior valor agregado da indústria, envolvendo infraestrutura, tecnologia, qualificação e financiamento deveria ser a prioridade do país.



