NEXO

O momento das taxonomias de finanças sustentáveis

Foto: João Stutz/Petrobrás

Ensaio por Nicolas Lippolis


Essenciais para direcionar capital à transição climática, sistemas se multiplicam globalmente

Taxonomias de finanças sustentáveis são sistemas de classificação criados por governos, seus órgãos reguladores e organismos internacionais para definir quais atividades econômicas realmente protegem o meio ambiente e a sociedade e estão alinhadas com metas climáticas. Servem, assim, de bússola para investidores direcionarem seus recursos para essas atividades, por meio de padrões de linguagem e comparações de dados financeiros entre setores e países, facilitando decisões de investimentos.

Há 10 anos, as taxonomias eram um nicho técnico restrito a especialistas em regulação financeira, sobretudo na Europa. Hoje, mais de 50 países e regiões adotaram ou estão desenvolvendo seus próprios sistemas de classificação. No Brasil, por exemplo, o Ministério da Fazenda lidera a implementação da Taxonomia Sustentável Brasileira, na qual 30 instituições, de Banco Central a Embrapa, estão envolvidas. Esse avanço ocorre, no entanto, em um contexto adverso: retração do multilateralismo climático, enfraquecimento de alianças privadas em torno da meta de net zero – o ponto de equilíbrio em que as emissões de gases de efeito estufa lançadas na atmosfera são iguais às removidas dela – e reorientação da política econômica global em favor de lógicas mais nacionalistas.

O marco inicial das taxonomias financeiras sustentáveis remonta a 2015, com o Catálogo de Projetos de Títulos Verdes da China. Desde então, o instrumento se expandiu por Europa, Ásia, África, América Latina e Austrália. A União Europeia desempenhou papel central nesse processo, não apenas pelo tamanho de seu mercado, mas por ter estabelecido um arcabouço normativo que se tornou referência global, ainda que de difícil replicação direta em outras jurisdições.

Mesmo diante de retrocesso climático, ferramentas ganham importância geopolítica na corrida por minerais críticos.

Nos mercados emergentes, o uso das taxonomias tem seguido uma lógica distinta. Enquanto a Europa buscava reorientar fluxos domésticos de investimento para iniciativas sustentáveis, países em desenvolvimento passaram a utilizá-las como ferramenta para atrair capital externo e assim viabilizar suas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) definidas a partir do Acordo de Paris. Além disso, taxonomias têm sido usadas para conferir credibilidade a emissões de títulos soberanos verdes. Bancos multilaterais tiveram papel decisivo, financiando capacitação e programas de apoio regulatório.

A China seguiu trajetória própria, com uma evolução contínua até a consolidação, em 2025, de uma taxonomia integrada que harmoniza critérios entre diferentes instrumentos financeiros. Já os Estados Unidos optaram por não adotar formalmente uma taxonomia; ainda assim, políticas como o Inflation Reduction Act cumprem função análoga ao definir, de forma indireta, o que é elegível como “verde”.

No entanto, o cenário de proliferação de taxonomias nacionais gera um problema estrutural: a fragmentação regulatória. Investidores que operam globalmente enfrentam múltiplos sistemas, com critérios e metodologias distintas. Iniciativas de convergência existem, mas permanecem dispersas.

O sistema, portanto, se assemelha a um “canteiro de obras”: múltiplos esforços, sem um centro coordenador claro. O resultado é um cenário de progresso incremental, mas sem padronização efetiva.

Três tensões definem os limites das taxonomias, a saber:

binaridade versus complexidade: classificações rígidas, verde ou não verde, tendem a ser insuficientes diante da diversidade de trajetórias de transição – o que tem levado ao desenvolvimento de modelos graduais

tecnocracia versus legitimidade política: estruturas excessivamente técnicas, sem respaldo político, tornam-se vulneráveis a revisões e retrocessos

padronização global versus adequação local: quanto mais alinhada a padrões internacionais, maior a credibilidade; quanto mais adaptada ao contexto doméstico, maior a relevância interna

Apesar das dificuldades e do retrocesso na agenda climática, o momento é de revalorização das taxonomias. Parte da explicação está em seu uso crescente como instrumento de política comercial. Em um ambiente de fragmentação das cadeias globais e reconfiguração de parcerias, a definição formal do que constitui atividade sustentável passa a influenciar acordos bilaterais, subsídios e acesso a mercados.

Há também um componente geopolítico mais difuso: a pressão por não ficar para trás. A adoção de taxonomias tornou-se um marcador de credibilidade e posicionamento internacional, estimulando uma corrida regulatória entre países, mesmo que isso amplifique a fragmentação.

Isso porque o papel das taxonomias vai além da mobilização de capital. Em um contexto de crescente politização do comércio de bens verdes e da centralidade de ativos como minerais críticos e tecnologias limpas, elas passam a definir critérios de acesso a mercados, subsídios e cadeias produtivas. Nesse sentido, tornam-se instrumentos de poder econômico. Países sem taxonomias correm o risco de exclusão – regulatória e financeira.

O Brasil insere a taxonomia em uma agenda mais ampla de reposicionamento econômico. O instrumento incorpora dimensões sociais específicas, como gênero e raça, e está associado a uma estratégia de maior protagonismo internacional, incluindo a proposta de uma “super taxonomia” no contexto da COP 30.

Para o país, o momento é estratégico. Com protagonismo crescente nas negociações climáticas, o Brasil tem a oportunidade de influenciar a arquitetura global dessas classificações, propondo modelos que reflitam as realidades do Sul Global – principalmente agora que assumiu a presidência do Taxonomy Roadmap Initiative, voltada à promoção da interoperabilidade das taxonomias. Além de contribuir para o alinhamento de critérios entre diferentes sistemas de classificação, a presidência brasileira poderá também impulsionar a difusão de boas práticas para sua implementação em instrumentos de finanças sustentáveis, gastos públicos e regulação financeira.

A fragmentação, portanto, não reduz a relevância das taxonomias, mas redefine sua função. De ferramentas técnicas, elas evoluem para instrumentos de soberania econômica e posicionamento geopolítico. O desafio central não é mais sua criação, mas sua operacionalização em escala, com dados, coordenação e capacidade institucional suficientes para torná-las efetivas.

Nicolas Lippolis é fundador e diretor executivo do CEFD (Centro de Energia, Finanças e Desenvolvimento).

ClimaInfo

Financiamento trava transição energética no nível local, dizem líderes em Santa Marta Com fundo abastecido

Leia Mais +

Eixos

OPINIÃO: Eletromobilidade entre China e Brasil: perspectivas de cooperação e desafios para a transição energética

Leia Mais +